
O segundo dia do 12º Congresso do Sintepe, realizado nesta quarta-feira (27) em Gravatá, promoveu profundas reflexões sobre a conjuntura política, os direitos das mulheres e os desafios estruturais da educação pública no Brasil. O evento teve pela manhã a mesa “Educação, Democracia e a Ameaça do Fascismo”, que contou com a participação do professor emérito da UFPE, Flávio Brayner, e do economista e pesquisador do IPEA, Pedro Silva Barros. O debate foi coordenado pelas diretoras do Sindicato Andrea Batista, Ivaneide Silva e o diretor Ivan Rui.
Em uma abordagem filosófica, Brayner destacou que o fascismo opera na desumanização e na destruição das identidades, situando o professor como um mediador essencial entre o conhecimento histórico e as utopias de futuro. Complementando a análise sob a ótica das relações internacionais, Barros alertou que o atual ciclo político e as pressões de potências externas trazem riscos inéditos à soberania nacional e aos princípios da Constituição de 1988, ameaçando o direito do país de gerir seus próprios recursos estratégicos.
O pesquisador do IPEA ainda destacou que o enfraquecimento do sistema multilateral global e as pressões de potências externas ameaçam diretamente o direito do país de decidir sobre seus próprios recursos estratégicos, como a gestão da Amazônia, a política de combustíveis e as pesquisas tecnológicas e nucleares.

Luta das mulheres – O debate de gênero e o combate às opressões estruturais ganharam centralidade na mesa seguinte que foi dedicada à luta das mulheres, que teve como palestrante a professora da UFRPE e ialorixá, Denise Botelho, com a presença das diretoras do Sintepe Camila Silva, Edneuza Hermógenes e Yara Manolaque na coordenação.
Inspirada pelo pensamento da ativista Angela Davis, a docente convocou a categoria a assumir a vanguarda contra o racismo, contra a misoginia e contra o fundamentalismo nas salas de aula. Ao caminhar pelo plenário e compartilhar sua trajetória como intelectual negra, Botelho denunciou a persistência de divisões históricas que geram exclusão nas escolas e apontou a assimetria de poder na própria educação.
A educadora enfatizou que, embora o magistério seja majoritariamente feminino, os espaços de alta liderança ainda são predominantemente masculinos, emocionando o público ao relatar sua própria rebeldia para superar as barreiras impostas pelo patriarcado.

Conjuntura política – No período da tarde, as discussões se concentraram no Painel Educacional, que reuniu Heleno Araújo (Vice-presidente da Internacional da Educação para a América Latina), Dalila Andrade (UFMG/CNPq) e Iana Gomes (UFRGS/Gestrado) para analisar o Plano Nacional de Educação (PNE) e as pressões cotidianas sobre a carreira docente. As diretoras do Sintepe Marília Cibelli e Katiane Cavalcanti coordenaram a mesa.
Araújo criticou severamente as políticas de bonificação meritocrática adotadas pelo Governo de Pernambuco, como o Bônus de Desempenho Educacional (BDE), argumentando que premiações desse tipo fragmentam a categoria e estimulam uma competição nociva. Em seguida, a professora Dalila Andrade apresentou dados globais alarmantes sobre a crise de atratividade da profissão, apontando que a América Latina pode enfrentar um déficit de 3,2 milhões de educadores até 2030 devido aos baixos salários, adoecimento mental pós-pandemia e à precarização dos vínculos empregatícios.

Encerrando as atividades do dia, a professora Iana Gomes compartilhou dados inéditos da pesquisa nacional “O avanço conservador na educação”, realizada pelo Coletivo Redes e financiada pelo CNPq. O estudo, que incluiu o município pernambucano de Jaboatão dos Guararapes, evidenciou como os discursos reacionários e a pauta do pânico moral voltada para temas de gênero e sexualidade têm gerado perseguições e provocado uma forte autocensura entre os professores.
Ao defender a urgência do posicionamento ético nas escolas, Gomes concluiu afirmando que não existe neutralidade no ensino e que omitir as discussões sobre direitos humanos significa compactuar com a manutenção das desigualdades vigentes.




